resumo solombra

Resumo do livro Solombra, de Cecília Meireles


Resumo Solombra - Cecília Meireles

Livro Solombra, de Cecília Meireles

A autora

Nascida na cidade do Rio de Janeiro, em 1901, Cecília Meireles publicou Espectros, seu primeiro livro de poemas, em 1919, aos dezoito anos. O Modernismo ainda não tinha desembarcado no Brasil, mas seus principais líderes, como os paulistas Mário de Andrade e Oswald de Andrade, já eram nomes fortes na literatura nacional.

Embora vivesse sob a influência do Modernismo, apresentava ainda, em sua obra, heranças do Simbolismo e técnicas do Classicismo, Gongorismo, Romantismo, Parnasianismo, Realismo e Surrealismo, razão pela qual a sua poesia é considerada atemporal.

 

A obra

O resumo e comentários de Solombra foi reunido pela VestibulandoWeb (www.vestibulandoweb.com.br). Solombra (1963) foi o último livro publicado em vida, por Cecília Meireles. É ele uma “parte” que contém o “todo” de seu universo poético.

Falar contigo. /.../ Dizer com claridade o que existe em segredo. / Ir falando contigo e não ver mundo ou gente. / E nem sequer te ver, mas ver eterno o instante / No mar da vida ser coral de pensamento.

Aí se entremostra, metaforicamente, a problemática filosófico-existencial que está na gênese de sua criação poética:

– “Falar contigo” (anseio de se sentir participante do absoluto ou Mistério divino/cósmico);

– “ver eterno o instante” (ânsia de descobrir o verdadeiro espaço ocupado pela efêmera vida humana, dentro da eternidade cósmica que a abarca) e

– “No mar da vida ser coral de pensamento.” (aceitação de seu destino de poeta, cuja tarefa maior seria captar, nomear ou instaurar em palavra, a verdade/beleza/eternidade ocultas nos seres e coisas fugazes, para comunicá-las aos homens e perpetuá-las no tempo.

Em permanente diálogo com o mistério do Absoluto (Deus), com a fugacidade da vida, o inevitável da morte e a possível tarefa da poesia, Cecília Meireles é, no âmbito da literatura brasileira, uma das vozes mais autênticas da grande crise espiritual que se instaura no entreséculos (séc. XIX.XX) e se prolonga até nossos dias, sob as mais variadas formas. De autêntico húmus religioso (no exato sentido etimológico do termo latino, religioso, religação do homem ao cosmos ou Deus), a poesia ceciliana expressa não só a fusão das múltiplas e altas experiências formais e temáticas da poesia-século XX, mas principalmente o difícil avançar em meio à fragmentação dos valores e paradigmas, imposta pelo Modernismo.

Solombra constitui obra relativamente curta. Ao contrário de outros livros de versos, composto via de regra por um grupo de poemas, Solombra consiste em texto único e unitário, já que o título dá conta de todo o conjunto. Está separado em estrofes, distanciadas algumas por espaços em branco; deve, porém, ser abordado de modo integral e de uma só vez.

Esta característica determina um modo de leitura nem sempre usual, quando se trata de poesia publicada em livro. Poemas não precisam necessariamente ser lidos na ordem crescente das páginas impressas, pois podemos iniciar pelo fim ou pelo meio, sem comprometer a compreensão do todo. É possível também retornar a estrofes prediletas de uma obra, deixando outras de lado, e também esse sistema não prejudica o entendimento e a valorização de um autor e de seus versos.

Solombra não admite esse processo de leitura, obrigando o leitor a acompanhar a trajetória do sujeito lírico a partir da primeira linha do poema e conduzindo-o até o final sem alteração de rumo. O formato adotado impõe-se ao leitor, impedindo-o de escolher o lugar de começar a leitura. Por outro lado, o poema solicita a adesão desse leitor, que, logo no primeiro verso, se depara com uma afirmação (“Vens sobre noites sempre”) e uma interrogação (“E onde vives?”), convocando-o a participar ativamente da construção do texto.

Quem ler Solombra terá necessariamente de começar pela primeira estrofe, e essa propõe de imediato um diálogo, decorrente da presença, nos dois verbos empregados no primeiro verso, da segunda pessoa, com a qual o leitor se identifica. Desse diálogo, sugerido pela abertura, participam um “eu”, a que chamaremos de sujeito lírico, responsável pela emissão da fala, lugar ocupado, conforme podemos supor, pela poeta, e um “tu”, que, por hipótese, constitui o espaço que nos cabe na interlocução. A esse “tu”, podemos chamar de “outro”, se não aceitarmos a posição oferecida a nós, leitores.  

No diálogo, formam-se os seguintes pares: um “eu” dirige-se a um “tu”; a poeta conversa com o leitor; um “alguém” lança interrogações a um “outro”. Se estivermos interessados no diálogo, aceitamos o lugar oferecido à segunda pessoa, de modo que o “tu”, o “leitor” e o “outro” passam a ser “eu” na minha perspectiva de destinatário. As alternativas são várias, e a escolha é livre, revelando desde o começo a riqueza com que Cecília Meireles deseja propor uma troca de idéias e de experiências com quem se direciona às suas estrofes.

Cabe acompanhar a trajetória desse diálogo. Inicia por uma afirmação do “eu” sobre o “tu”, que, nas palavras do sujeito lírico, vem “sobre noites”, mostrando-se um ser noturno ou sombrio. Pode-se supor, pois, ser esse “tu” a solombra – ou sombra – de que fala o título. A essa frase afirmativa, sucedem-se as perguntas sobre o interlocutor, cuja origem o “eu” ignora, assim como desconhece seu rosto.

A dificuldade de comunicação não desencoraja o sujeito lírico, que indaga o nome do “outro”, temendo, porém, o silêncio e a ausência de resposta. No segundo grupo de estrofes, a solidão define o estado em que se encontra a poeta, mas essa situação não constitui matéria de lamentação. O “eu” persiste no desejo de comunicar-se, voltando a questionar, no terceiro grupo de estrofes, onde o “outro” está, já que, embora não possa vê-lo, acredita em sua existência. A mera procura justifica o sujeito lírico para si mesmo; por isso, seu olhar brilha como se molhado pelo orvalho, e o sangue mostra-se “leal” e “nítido”, sintoma de que o “eu” está decidido a levar a busca até o final.

O bloco subseqüente de versos mostra novas decisões do “eu”, que, se aceita a solidão, deseja libertar-se de tudo o que o aprisiona, para, enfim, romper a distância que o separa do “outro”. A imagem da sombra é utilizada agora pelo sujeito lírico para falar Cecília Meireles de si mesmo, ao confessar que deseja se colocar sob a tutela de seu interlocutor. Aceitar a dependência é igualmente a possibilidade de falar, levando adiante o diálogo, em que dirá “com claridade” o que “existe em segredo”.

Eis a possibilidade de um autêntico diálogo, aquele em que se expõe tudo. Acontece apenas perante aquele a quem se ama, porque a relação entre os amantes é pura, livre de segundas intenções, “sem prêmio”, límpida. O “eu” entrega-se ao “outro”, alcançando a plenitude da vida e interrompendo o diálogo, já que a distância inicial desapareceu. A confluência alcançada explica o “amor completo”; mas confirma também a solidão do sujeito lírico, como se, nessa busca, ele tivesse se encontrado consigo mesmo. O “eu” e o “outro” formam uma unidade, determinando nova peregrinação.

É a Beleza o novo objeto da busca, que pode ser vislumbrada e contemplada, não, porém, necessariamente alcançada. A dificuldade não detém o sujeito lírico, que prossegue em seu caminho, avançando, conforme esclarece, “por mapas de esperança”. Sabe que “o que amamos está sempre longe de nós”, retomando a fala da distância, mas não desistindo de sua procura, nem de seu desejo de ultrapassar as separações. Essa é sua única ambição, pois, de resto, apresenta expectativas singelas: “Basta-me o umbral, de onde se avista o ponto certo,/o grande vértice a que sobe o olhar do mundo.” Consciente da solidão, mas também da liberdade obtida, o sujeito lírico persevera, sabendo também que seu destino é a morte.

A proximidade da morte faz com que o sujeito lírico volte a clamar pelo “outro”, o “tu” que se mostra de novo à distância, alargada essa pelo emprego da segunda pessoa do plural, o “vós”, considerado um pronome de tratamento mais solene. Pede-lhe então: “Acendei vossa ausência”; e exclama: “Dizei-me onde é que estais, em que frágil crepúsculo!” A serenidade dos versos anteriores é substituída pelo desejo de que o diálogo enfim se estabeleça:

“Que pretendem concluir impossíveis diálogos?” Segue-se a aceitação da irremediável solidão, representada por palavras que nada dizem, como os “adeuses” que calaram, e por abraços que perderam a forma, imagem que se destaca num dos últimos versos de Solombra. A poeta fecha o poema sem voz nem fala; restam a mudez, e, por conseqüência, a ausência de ecos, bem como o derradeiro afastamento. Se sabia da solidão, o “eu” conhece agora a morte, o “adeus” sem “despedidas”.

Solombra encerra de modo melancólico, porque o horizonte da trajetória do “eu” é a morte. A poeta almeja suplantar distâncias, vencer as dificuldades, ascender à Beleza e a superioridade do “outro”, com quem almeja identificar-se e confundir-se. Mas a morte interrompe a busca, garantindo tão-somente a persistência da solidão. Não que a poeta deseje conquistar algo, atingir o poder ou a glória, revelar-se importante; pelo contrário, humilde sempre, tem consciência de sua pequenez, da efemeridade das coisas e da vaidade das pessoas, a quem evita voluntariamente. Exilando-se da multidão e da fortuna, deseja chegar ao outro lado, a uma realidade melhor, representada por esse ser com quem deseja se comunicar.

Não acredita ter sido bem-sucedida, lamentando a impossibilidade de sua busca chegar a um resultado satisfatório. No entanto, podemos, se quisermos, consolá-la e reconfortá-la. Basta lembramos que o “outro” pode ser o leitor, e que o “tu” pode ser nosso próprio “eu”. De posse desse conhecimento, podemos contestar a poeta, respondendo-lhe que, ao contrário do que ela pensou, houve a comunicação almejada. Graças à leitura de seus versos, sua linguagem chegou até nós, humildemente, como ela queria, mas alcançando nosso imaginário e propondo uma relação de afeto e admiração.

A poeta anseia por uma relação amistosa, baseada no amor da poesia; como seus leitores, podemos satisfazê-la, satisfazendo-nos simultaneamente. Para tanto, basta acompanhar o percurso do sujeito lírico e deixar-nos levar por seu trajeto rumo ao melhor, e mais puro, que cada um traz consigo e nem sempre expressa.

A única ambição de Cecília Meireles tem essa dimensão: deseja que ouçamos seus versos, abramos os ouvidos à sua fala, descerremos os olhos às suas imagens, e divisemos o mundo superior e autêntico que nos presenteia. Nada melhor que acompanhar sua sugestão.

Podemos, porém, escolher veredas alternativas, que levam primeiro a textos mais curtos, preparando-nos para o grande salto no lirismo de Solombra.

Adentrando-se no lirismo de Solombra ou percorrendo regiões distantes, Cecília oferece ao leitor a possibilidade de esse alargar suas próprias experiências, ao dialogar com a linguagem multifacetada da poesia.

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Resumo Solombra, de Cecília Meireles

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