Paraísos artificiais


Conto: Uma doença


Paraísos Artificiais - Paulo Henriques Britto

Créditos: Prof. Manoel Neves

Uma doença

Narrador: narrador protagonista, não nomeado

Personagens: narrador protagonista com uma doença não nomeada.

Tempo: Cronológico, mas indefinido.

Espaço: Interior de um quarto, sendo que o locutor está numa cama.

Técnicas usadas: Relato em primeira pessoa que se revela ao final, metalingüístico.

Enredo:
Neste segundo conto de Paraísos artificiais, volta o quarto, volta a cama, volta a percepção subjetiva do real, volta o solipsismo. Por estar preso a uma cama devido a uma doença, a satisfação momentânea do narrador se dá por intermédio, num primeiro momento, da catalogação de manchas e rachaduras, e, logo após, através da construção da narrativa.
 
O relato, de primeira pessoa, apresenta um narrador-protagonista não nomeado. Ele está doente e, por isso, é obrigado a ficar na cama o dia inteiro.

Da cama consegue divisar três paredes do quarto, parte do assoalho e uma nesga do céu. Como não tem coisa alguma para fazer, decide fazer um inventário das manchas e rachaduras presentes nas paredes, nos tacos e no teto. Primeiro constrói um “mapa”, desenhando-as num pedaço de papel. Depois, cataloga e classifica.

Nesse trabalho, entra, inclusive, a descrição de uma maçã estragada deixada ao lado de sua cama. Após algum tempo, o locutor começa a perceber que os elementos catalogados sofrem alterações. Até mesmo as imagens formadas pelo movimento que seu corpo faz no lençol são assentadas e alteradas sem parar.

Consciente da impossibilidade de sua mente conseguir registrar o progresso silencioso de todas as alterações a que o real está sujeito, o locutor se detém na análise das mudanças que a doença produz no seu corpo. Tenta, ainda, estabelecer uma relação entre todos os elementos catalogados e a progressão de sua doença.

Por fim, descobre uma rachadura no teto, a qual parece se relacionar de alguma forma com sua doença. Nos dias em que estava pior ou que não se alimentava, a rachadura progredia com maior intensidade. Pensando haver alguma correlação entre a rachadura e o estado de saúde do seu corpo, observa-os por alguns dias. Não chega a conclusão alguma, então constrói o relato que lemos.
 
Atente-se para o fato de que, se o primeiro conto levanta a hipótese de que a escrita é uma forma de tentar apreender o real e registrar a permanência do corpo no tempo e no espaço, o segundo texto é uma comprovação disso, na medida em que ele nos apresenta um locutor que, nada tendo para fazer, constrói um relato sobre as mínimas alterações do espaço ao seu redor e tenta relacioná-las às modificações que a doença [não nomeada] traz ao seu corpo.
 
O narrador de “Uma doença” tenta comprovar que há uma relação bastante íntima entre as alterações que a doença processa em seu corpo e aquelas que o próprio real se encarrega de imprimir às manchas e rachaduras analisadas. Por isso é que levanta hipóteses [tal qual o narrador do conto anterior]: talvez eu viesse a constatar que, enquanto descruzara as pernas sob o lençol, uma nova mancha tinha surgido na casca da maçã ou na parede, ou uma rachadura no teto avançara um pouco.
 
Se Paulo Henriques Britto diz serem os primeiros contos da coletânea solipsistas, o narrador desta segunda narrativa busca comprovar essa idéia, na medida em que levanta a tese segundo a qual o mundo ao redor é apenas esboço do que ele imagina. Tal qual um deus, procura ordenar o Real, através dos “mapas” que constrói: Depois coloquei em ordem todos os mapas e elaborei uma história dos movimentos geológicos do meu lençol; dividi essa história em eras e períodos, fases de construção de montanhas, épocas de vastas planícies, de grandes cataclismos e evoluções graduais.

Além das relações apontadas anteriormente, é possível perceber que o narrador do segundo conto parece, de alguma forma, se relacionar com o interlocutor do primeiro conto, pois, no primeiro conto, o locutor alude ao fato de que se alguém ficar muito tempo deitado numa cama em uma só posição, sentirá desconforto e precisará mudar a disposição em que estava. Mesmo na cadeira – lugar em que se cansaria menos –, seria preciso mudar as pernas de posição. No segundo conto, o protagonista se refere duas vezes ao cansaço advindo de ter permanecido na mesma posição e ao fato de que mudara as pernas de posição, o que permite a associação entre os dois textos.


Estudo dos demais contos presentes na obra Paraísos Artificiais, de Paulo Henriques Britto.


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