- UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO - UFRJ -
- PROVA DE HISTÓRIA - VESTIBULAR 2001 -

01)

Sexo e idade dos escravos africanos importados para o Rio de Janeiro, 1838-1852
Idades Número de Homens Número de Mulheres Total
De 0 a 9 anos 17 12 29
De 10 a 19 anos 194 68 262
De 20 a 29 anos 102 16 118
30 ou mais anos 13 12 25
Total 326 108 434
Fonte: Karasch, Mary C. A vida dos escravos no Rio de Janeiro, 1808-1850. São Paulo: Companhia das Letras, 2000, p. 69.

A tabela acima foi construída com base em registros relativos a alguns navios negreiros capturados depois de 1830 e constitui uma eloqüente amostra de certas características demográficas dos mais de três milhões e meio de africanos desembarcados no Brasil entre os séculos XVI e XIX.
Seus dados permitem visualizar o perfil sexo-etário do trabalhador que os grandes plantadores escravistas almejavam.
a) Identifique duas características relacionadas a este perfil sexo-etário.
b) Relacione as características identificadas no item anterior às ex-pectativas econômicas dos grandes plantadores escravistas do Brasil.

02)

   Queremos e nos agrada que, a contar do primeiro dia deste mês, seja estabelecido, imposto e cobrado, em toda a extensão do nosso reino, uma capitação geral por lar ou família, pagável ano a ano, durante a duração da presente guerra. Queremos que nenhum de nossos súditos [...] seja isento da dita capitação, fora [...] as ordens mendicantes e os pobres mendigos.

(Declaração do rei Luis XIV estabelecendo a capitação, 18 de janeiro de 1695.
Citado por Groupe de Recherche pour l’enseignement de l’Histoire et la
Géographie. Histoire. Héritages européens. Paris, Hachette, 1981, p. 107)

O Estado centralizado surgiu como um fator de peso na vida das sociedades da Europa ocidental na Época Moderna. Seus sinais mais evidentes eram a arrecadação de impostos, a criação de um corpo de funcionários dependente do rei e a concentração do poder material e espiritual nas mãos do monarca, enfraquecendo os poderes locais, regionais ou provinciais.
Na Época Moderna, a construção de um Estado forte e intervencionista veio atender aos interesses dos grupos sociais dominantes e várias das medidas então adotadas descontentaram camponeses e trabalhadores urbanos.
Hoje, o neoliberalismo, ao defender a redução da presença do Estado na vida econômica e social, também atende aos interesses dos grupos dominantes e enfrenta reação de setores expressivos da classe trabalhadora.
a) Identifique um tipo de ação do Estado Moderno que tenha gerado insatisfação entre os camponeses e trabalhadores urbanos europeus.
b) Identifique e explique um dos argumentos atualmente utilizados por setores da classe trabalhadora na contestação à redução do papel do Estado na economia.

03)

   A posição dos moradores do hemisfério americano foi, durante séculos, meramente passiva: sua existência política era nula. Estávamos num grau ainda mais baixo que a servidão e, por isso, com maiores dificuldades para elevarmo-nos ao gozo da liberdade.[...] Os Estados são escravos pela natureza da sua Constituição ou pelo abuso dela. Logo, um povo é escravo quando o governo, por sua essência ou por seus vícios, espezinha e usurpa os direitos do cidadão ou súdito. Aplicando estes princípios, veremos que a América estava privada da sua liberdade e também da tirania ativa e dominante.

(In: Simon Bolívar: Política. (Orgs.) Manoel Lelo Belloto e Anna Maria Martinez Corrêa. São Paulo, Ática, 1983, pp. 80)

Assim escreveria Simon Bolívar, em 1815, na chamada Carta de Jamaica – também conhecida como Carta Profética, na qual faria uma avaliação sobre as tendências políticas dos movimentos de independência na América Espanhola. Entre o final do século XVIII e as primeiras décadas do século XIX, os processos de independência das áreas coloniais americanas (principalmente América Inglesa e América Espanhola) conheceriam complexidades históricas e desdobramentos políticos diversos.
a) Identifique o regime político predominante implantado pelos movimentos de independência das colônias da América Espanhola.
b) Identifique dois fatores relacionados à crise do Antigo Sistema Colonial e aos movimentos de independência das colônias americanas.

04)

   A ascensão política do austríaco Joerg Hider tem provocado reações variadas. Uma parte dos especialistas procura aproximar sua plataforma às práticas do velho nazismo; daí o mero recurso ao prefixo ‘neo’ para caracterizá-la.
[...] Não se pode deixar de verificar, de pronto, as disparidades entre neonazismo e nazismo. O nazismo foi o sintoma da ‘pobreza’ alemã em meio à
abundância européia, enquanto o neonazismo é sintoma da abundância européia em meio à pobreza africana, leste-européia etc.

Adaptado de Fernando Haddad: “Nacionalismo e Multiculturalismo” in Folha de São
Paulo. Caderno Opinião. 20/02/2000

Cinqüenta e cinco anos após o fim da 2 a Guerra Mundial, o mundo se estarrece diante da violência da ação de grupos neonazistas, notadamente na Europa ocidental. Além de manifestações de violência física, esses grupos dedicam-se a veicular suas idéias utilizando múltiplos meios, como a música, as publicações clandestinas e a Internet. A maioria da população mundial rejeita tais idéias e manifestações e, através dos governos e da atuação da sociedade civil, busca defender a cidadania nos Estados mais afetados.
a) Identifique uma semelhança e uma diferença entre o nazismo e o neonazismo.
a) Explique um fator que tenha contribuído para o crescimento do neonazismo a partir da década de 80.

05)

   Uma aldeia e duzentos a trezentos índios, umas vezes se achava a vinte léguas acima e daí a poucos dias vinte léguas mais abaixo; chamar-se-ão estes
homens errantes, proprietários de tais terrenos? Poderá dizer-se que eles têm adquirido direito de propriedade? Por que razão esta raça não se aldeia fixamente como nós? [...] Eu quisera que me mostrasse a verba testamentária, pela qual nosso pai Adão lhes deixou aqueles terrenos em exclusiva propriedade
[...]

Anais do Parlamento Brasileiro, Assembléia Geral Legislativa, Câmara dos Senhores Deputados, 1826.

O documento acima é um exemplo de como a discussão acerca dos direitos indígenas sobre as terras que ocupam é antiga no Brasil, sendo tema de debates parlamentares desde o Primeiro Reinado até nossos dias.
No que diz respeito aos direitos indígenas, a Constituição Federal de 1988, em seu artigo 231, reconhece “sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens.”
a) Cite um argumento usado na atualidade contra os direitos indígenas assegurados na Constituição Federal de 1988.
b) Identifique uma forma de atuação dos povos indígenas que tenha contribuído para o reconhecimento de seus direitos na referida Constituição.