N ã o T r o p e c e n a L í n g u a - M. T. Piacentini

ONDE / AONDE

Desde logo devo esclarecer ao Terêncio Bertolini, de SP, que na fala pouco se faz distinção entre onde e aonde – a diferença de pronúncia é pequena, então não se costuma reparar muito nisso. Aliás, na língua clássica essa distinção não existia. Mas como o leitor manifesta sua vontade de saber sobre "o emprego correto dos dois vocábulos" – certamente porque tem na língua escrita sua ferramenta de trabalho – , vamos lá.

¨ Onde = lugar em que/ em que (lugar). Indica permanência, o lugar em que se está ou em que se passa algum fato. Complementa verbos que exprimem estado ou permanência e que normalmente pedem a preposição em:
      ¨
Onde estás? – Em casa.
      ¨ Você sabe onde fica o Sudão? – Na África.
      ¨
Onde moram os sem-terra?
      ¨ Não entendo onde ele estava com a cabeça quando falou isso.
      ¨ De onde você está falando?
      ¨ Não sei onde me apresentar nem a quem me dirigir.
¨
Aonde = a que lugar. É a combinação da preposição a + onde. Indica movimento para algum lugar. Dá idéia de aproximação. É usado com os verbos ir, chegar, retornar e outros que pedem a preposição a. Exemplos:
      ¨
Aonde você vai todo dia às 9 horas? – A Brusque.
      ¨ Sabes aonde eles foram? – Ao cinema.
      ¨ A mulher do século 21 sabe muito bem aonde quer chegar.
      ¨ Não sei aonde ou a quem me dirijo.
      ¨ Aonde
nos levará tamanha discussão?
      ¨ Faz três dias que saiu do Incor, aonde deverá retornar brevemente para uma revisão.
      ¨ Estavam à deriva, sem saber aonde ir.
      ¨ Há lugares no universo aonde não se vai sozinho.

É preciso atentar para a colocação desses termos quando complementam uma locução verbal com o verbo auxiliar ir, que pode confundir o redator. O que interessa observar é o verbo que tem ligação com onde/aonde, qual seja, o verbo principal (o que vem por último). É o caso desta frase, retirada da revista ISTOÉ:
      ¨ Na terça-feira, antes de viajar para Madri, onde foi receber o prêmio "Príncipe de Astúrias", o presidente Fernando Henrique Cardoso estava preocupado com a retomada da onda de violência nos Estados.

De Brasília, Flatônio J. da Silva propõe a mesma discussão. E acrescenta uma frase que merece comentário à parte: Nossos produtos vão até onde (ou aonde?) você está.

Como se pode usar até a ou simplesmente até (pela questão da ambigüidade de que falei no artigo Não Tropece na Língua n.º 4), valem as duas formas:
      ¨ Nossos produtos vão até onde você quiser.
      ¨
Nossos produtos vão até aonde você quiser.

Só que, nesse caso, tão importante quanto escrever correto é escrever com estilo. Voto portanto na frase (1).

*Maria Tereza de Queiroz Piacentini, autora dos livros "Só Vírgula" e "Só Palavras Compostas", é diretora do Instituto Euclides da Cunha, www.linguabrasil.com.br