N ã o T r o p e c e n a L í n g u a - M. T. Piacentini

QUESTÕES DE PLURAL (1)

  • "Gostaria de saber qual é o plural de curriculum vitae." (A.K., São Paulo/SP)

Quando se quer falar em mais de um currículo, pode-se usar o latim curricula vitae ou simplesmente escrever em bom português:

- Os currículos apresentados não satisfizeram a diretoria.

  • "Na frase ‘Muitos carros estão velhos’, posso substituir muitos por bastante. Mas como fica a palavra: bastante ou bastantes carros estão velhos?" (Gerson Risso, São Paulo/SP)
  • "Gostaria de saber se o termo ‘bastante’ aceita a forma no plural ‘bastantes’ em alguma situação." (Márcio Fróis, Belo Horizonte/MG)

BASTANTE pode ser adjetivo ou advérbio. Há forte tendência no Brasil para deixar o adjetivo invariável: Li bastante livros, tenho bastante amigos. Isso por influência do bastante advérbio, que naturalmente é invariável:

Lemos bastante.

Boas redações são bastante raras.

Mas na língua culta formal – sobretudo escrita – pluralizar o adjetivo é de rigor:

Bastantes carros estão velhos.

Temos procurações bastantes para assegurar o quórum.

  • ¨ "Fax tem plural?" (Márcia Franco Tunholi, Curitiba/PR)

O termo fax vem do inglês, numa redução do latim fac simile, aportuguesado para

fac-símile, plural fac-símiles. Como se trata de um meio de transmissão, o certo mesmo seria dizer: Mandei duas mensagens/cartas/ofícios/etc. por fax.

O termo simplificado, por terminar em ‘x’, deveria seguir a mesma regra de ônix e dúplex, ou seja, sem variação no plural: um fax, dois fax. Mas o plural com ‘es’ também vem sendo usado por dar mais idéia de clareza e correção, observe:

O prefeito referia-se a fax sem assinaturas deixados na sua mesa.

O prefeito referia-se a faxes sem assinaturas deixados na sua mesa.

Em tempo: o Dicionário Houaiss registra as duas formas de plural: fax e faxes.

  • "Gostaria de saber por que a imprensa usa tanto a expressão sem-terra com o verbo no plural. Por exemplo: ‘Sem-terra invadiram a fazenda do presidente’. Está certa a concordância? Por quê?" (Ronaldo Cardoso, Jataí/GO)

Pode parecer estranho o sujeito sem ‘s’, aparentemente no singular, e o verbo no plural. O que explica essa concordância é que o substantivo fica invariável quando está na função de adjetivo. É o caso de camisas esporte e navios pirata, por exemplo. E a expressão SEM-TERRA (formada de prefixo + substantivo) está adjetivando um outro substantivo como ‘agricultor/pessoa/homem’, que pode estar explícito ou implícito na frase. No seu exemplo estão elípticos os termos ‘os’ e ‘agricultores’. Assim, os agricultores sem-terra invadiram > os sem-terra invadiram > sem-terra invadiram.

Enfim, são invariáveis todas as substantivações e adjetivações que têm essa formação de ‘sem’ com valor de prefixo mais hífen: um sem-número, a sem-cerimônia, um sem-família, o sem-fim, as sem-pátria, os sem-vergonha e assim por diante.

*Maria Tereza de Queiroz Piacentini, autora dos livros "Só Vírgula" e "Só Palavras Compostas", é diretora do Instituto Euclides da Cunha, www.linguabrasil.com.br