Disse-me o professor José T. B. Neto, de Umuarama / PR: "Tenho certa resistência em grafar ensino a distância, sem o acento grave indicativo de crase, como é comum encontrar nos documentos exarados pelo MEC. Alguns autores classificam tal ocorrência como CRASE FACULTATIVA. (...)"
Não está errado o Ministério da Educação. Mas eu, assim como o professor, prefiro usar o acento – nessa e em outras locuções adverbiais que indicam circunstância. O motivo é que a ausência do acento pode deixar o texto ambíguo. Em "ensinar/estudar a distância", por exemplo, fica-se com a impressão de que é a distância que está sendo ensinada ou estudada. É o mesmo caso de viu a distância, escreveu a distância, curou a distância, fotografe a distância, permanece a distância [= a distância permanece] e assim por diante, frases que parecem melhor com o acento indicativo de crase (que por questões didáticas também chamamos apenas de ‘crase’): viu à distância, escreveu à distância, curou à distância, fotografe à distância, permanece à distância.
Com a distância determinada, especificada, o a deve ser acentuado:
- Fotografe à distância de um metro.
- A casa à venda fica à distância de uns 10 km daqui.
Já na frase "Compramos uma chácara a grande distância daqui" não há crase, porque está subentendido o artigo indefinido: a (uma) grande distância.
Outras expressões de circunstância
Nas locuções adverbiais com palavras masculinas, como: a pé, a caminho, a cavalo, a frio, a gás, a gosto, a lápis, a meio pau, a nado, a óleo, a pé, a postos, a prazo, a sangue-frio, a sério, a tiracolo, a vapor etc. não se acentua o a, que é uma simples preposição.
Nas locuções femininas, contudo, embora esse a possa ser só preposição – e se sabe que a crase é a fusão da preposição a com o artigo a –, é de tradição no Brasil crasear o a por motivo de clareza. Compare nos exemplos abaixo o significado da frase sem a crase e com ela:
- Foi caçada a bala (a bala foi caçada). – Foi caçada à bala.
- Bateu a máquina (deu um choque ou pancada...). – Bateu à máquina.
- Cortou a faca (cortou-a / cortou a própria faca). – Cortou à faca.
- Vendeu a vista (vendeu os olhos). – Vendeu à vista.
- Coloquei a venda (faixa nos olhos). – Sim, coloquei à venda.
- Tranquei a chave (a chave foi trancada). – Tranquei à chave.
- Pagou a prestação (pagou-a). – Pagou à prestação (em prestações).
Outras frases com diferenças bastante óbvias:
- Lavar a mão. Lavar à mão.
- Lavar a máquina. Lavar à máquina.
- Fazer a mão. Fazer à mão.
- Veio a tarde. Veio à tarde.
- Combateremos a sombra. Combateremos à sombra.
- Aguardavam a cabeceira do doente. Aguardavam à cabeceira do doente.
É por essa questão de clareza que se recomenda e geralmente se acentua o a nas locuções adverbiais de circunstância, mesmo não sendo ele rigorosamente a fusão de a + a. Para finalizar, outros exemplos: à disposição, às avessas, à beira-mar, às centenas, às escondidas, à frente, à mão armada, às mil maravilhas, à noite, às ordens, à paisana, à parte, à perfeição, à primeira vista, à revelia, à risca, à solta, à toa, à vela, às vezes, à vontade.
*Maria Tereza de Queiroz Piacentini, autora dos livros "Português para Redação" e "Só Vírgula", é diretora do Instituto Euclides da Cunha,www.linguabrasil.com.br
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Crase com Locuções Adverbiais