Poesia Marginal de 26 Poetas Hoje, de Heloisa Buarque de Hollanda

O debate promovido pela revista José, em seu segundo número, a partir da comemorada publicação do livro 26 poetas hoje, organizado por Heloísa Buarque de Hollanda, em 1976, problematiza e discute as premissas da antologia, reunião de parte da publicação dos chamados “poetas marginais”, que marcavam a nova poesia brasileira na vigorosa década de 70. Numa revista cujo conceito de literário aponta justamente para a poesia, o debate se constitui como o próprio questionamento dos rumos e das possibilidades da literatura, num momento em que se expõe a inviabilidade da ideia de vanguarda.

Partindo da premissa que reúne os vários poetas na antologia, a poesia “marginal”, o debate detecta a inexistência de uma proposta estética comum ou de procedimentos literários convergentes, estabelecendo a dificuldade de se caracterizar tal poesia, talvez agrupada a partir de uma postura similar dos poetas face ao mercado, diante dos obstáculos da publicação. Heloísa Buarque de Hollanda, na introdução da antologia, se refere a uma retomada de 22 e ressalta, no debate, que a tônica da subjetividade é imperativa no grupo: “nos mais novos isso fica flagrante, é ao mesmo tempo seu charme e seu risco”, enfatizando que isso denuncia uma certa atrofia da reflexão, confinamento de sua atuação no mundo, gírias e expressões muito fechadas e assuntos reduzidos, “traço dessa geração que frequentou a Universidade depois de 68”. A estes acrescenta-se, segundo Heloísa, uma certa dose de anarquismo, enquanto nos mais velhos, a crítica salienta um procedimento literário carregado de ironia crítica, de um distanciamento assumido e construído.

Percebe-se a problemática de se delimitar os traços ou as transpirações dessa “nova” poesia, mas arrisca-se alguns palpites: a intenção de “matar” Cabral, o afunilamento de caminhos entre poesia e vida, a busca de um certo evasionismo, o deboche ao literário, o antiformalismo. Várias são as premissas apontadas na tentativa de se encontrar o ponto comum que une a antologia, no entanto, nenhuma delas parece se sustentar ou ser aceita por unanimidade. Inclusive, pode-se somar aqui a alternativa, mencionada por Heloísa em texto publicado na Almanaque, de que o termo marginal vem justificado pela “condição alternativa”, à margem da produção e veiculação no mercado. No debate, ela já argumentava que a antologia era uma espécie de marginalidade em termos de mercado, criando uma imprensa alternativa em relação ao establishment. Luiz Costa Lima alerta para o risco de, seguindo tal raciocínio, tomar como establishment uma série de poetas pelo simples fato de serem editados pela José Olympio ou outras editoras prestigiosas. Na perspectiva de Heloísa, é pertinente refletir sobre a situação do poeta marginal como aquele que não conta com apoio editorial. Nesse sentido, Cacaso convida-nos à reflexão sobre as consequências da nova posição do marginal, em que “o poeta […] já não conta com apoio editorial, e menos ainda com o sistema de interesse e promoção a ele ligado, também não tem de se guiar por seus critérios. O poeta é levado a um descompromisso crescente com outras esferas do mundo institucionalizado, o que pode ter implicações propriamente literárias e de concepção”.

Faz-se imperativa uma questão: continuariam sendo “marginais” os poetas publicados em 26 poetas hoje, após o sucesso editorial? A poesia suja, deseducada, rebelde às leis do mercado, de repente se vê em caprichosas edições, comportando-se e seguindo a risca os imperativos da lógica capitalista.

Um texto de apresentação do oitavo número de Arte em revista, periódico paulista dos 80, passa em revista o fenômeno da “poesia marginal”, dentre outras manifestações “independentes”, e também anuncia, em seu olhar retrospectivo, as ambiguidades e equívocos da expressão, que comporta uma vasta e diferenciada produção:

Por recobrir uma gama muito vasta e diferenciada de produção e por não indicar outro critério de marginalidade senão o de colocar-se fora do movimento editorial, a expressão “poesia marginal” é ambígua e, talvez, equivocada. Porque ao lado das edições pobres, sem requintes gráficos, desdobravam-se outras tentativas de produção poética, também em edições limitadas e circulação marginal, mas em edições limpas, graficamente inventivas, e autofinanciadas.

Neste texto, também se arriscam algumas interpretações do critério de marginalidade:

Talvez, ainda, um resquício da atitude romântica de insurgência contínua do artista contra o decoro da linguagem, da arte e da sociedade. Ou ainda: resquício das atitudes participantes da década anterior, movidas pela necessidade de falar em tempos de penúria. Ou, finalmente, a recusa de contribuir para com a política literária. De qualquer forma, parece claro que o critério sempre aventado, o da mercantilização dos produtos artísticos, é insuficiente para identificar as margens da poesia marginal, já que a mercantilização, embora artesanal, também estava no fim da produção. Basta verificar que não tiveram os poetas marginais nenhuma resistência à publicação editorial regular quando solicitados.

Verifica-se a dificuldade de agrupamento no mesmo rótulo de uma produção desigual, com distintos níveis qualitativos e não convergentes a um determinado compromisso estético. O termo parece ter se transformado num filão, condensando uma gama de poetas de matizes, ou melhor, dicções declaradamente distintas.

Outra questão permeia o debate e vale ser ressaltada: se a falta de programa é patente, essa inexistência de um projeto comum não implicaria numa ausência de reflexão crítica dessa poesia? Enquanto Luiz Costa Lima e Heloísa Buarque de Hollanda concordam com esta premissa, Ana Cristina Cesar, uma das poetas publicadas na antologia, discorda. Quando se chega ao problema da qualidade, que envolve todo o debate e a própria escolha dos poemas que compõem o livro, questiona-se a dificuldade de se estabelecer os parâmetros do valor literário. Como “retrato de geração”, parece ter sido válido o aparecimento da antologia, mas é nítido o desconforto de algumas presenças no livro para os debatedores, revelando que o livro expõe uma produção multiforme, divergente e desigual. Pode-se concluir afirmando que 26 poetas hoje foi, além de sucesso editorial, uma polêmica questão para o periodismo refletir sobre os rumos da poesia nos fins da década de 70.

Alguns escritores citados na obra

Francisco Alvim, Carlos Saldanha, Antonio Carlos de Brito, Roberto Piva, Torquato Neto, José Carlos Capinan, Roberto Schwarz, Zulmira Ribeiro Tavares, Afonso Henriques Neto, Vera Pedrosa, Antonio Carlos Secchin, Flávio Aguiar, Ana Cristina Cesar, Geraldo Eduardo Carneiro, João Carlos Pádua, Luiz Olavo Fontes, Eudoro Augusto, Waly Sailormoon, Ricardo G. Ramos, Leomar Fróes, Isabel Câmara, Chacal, Charles, Bernardo Vilhena, Leila Miccoli, Adauto.

26 Poetas Hoje

  • Poesia Marginal de 26 Poetas Hoje, de Heloisa Buarque de Hollanda
  • Traços estilísticos de 26 Poetas Hoje, de Heloisa Buarque de Hollanda
  • Resumo de 26 Poetas Hoje, de Heloisa Buarque de Hollanda
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