Problemática do livro Quincas Borba, de Machado de Assis

Problemática de Quincas Borba

Parece-nos importante destacar aqui três aspectos ponderáveis no romance: a nulidade da vida, numa visão niilista e pessimista’; a apresentação de uma sociedade falsa e carcomida pelo câncer da hipocrisia e da ambição; e a indiferença dos astros do céu diante dos problemas do homem.

A seguir, procuraremos desenvolver esses três aspectos:

Niilismo-pessimismo

Sem dúvida, como ressalta o crítico Massaud Moisés, “o livro todo é uma grande sátira da vida, de seus ingredientes e de suas “verdades” (…) A ironia atinge a todos e só se salvam (caso o consigam), os loucos, os mansos e os animais irracionais”.

O romance é uma visão fria e impassível da vida. Lúcido como sempre, pessimista e niilista, Machado de Assis vai dissecando com sua câmera lenta toda a humanidade, corroída e carcomida pelo câncer da hipocrisia e da falsidade, espalhando por toda a terra e suas criaturas a sua “bílis” de epiléptico e de mestiço da sociedade. Tudo perpassado de uma visão irônica, de um humor niilista e pessimista que sempre marca a literatura machadiana. Em suma, é uma visão da vida que só a lucidez de um espírito louco, como Quincas Borba, pode dar: a humanidade desenfreadamente louca a buscar prazeres fáceis e fugazes, numa vida que só é opróbrio e alienação, embora com toda a fisionomia de verdade, porque aceita como convenção o imperativo moral da sociedade. No fim, a vida não passa de uma batatada: come-a a tribo vencedora – “ao vencedor as batatas”. Ao cabo de tudo, os “heróis” da vida pegam nada, levantam nada e cingem nada, como aconteceu com o Rubião:

Poucos dias depois morreu… Não morreu súdito nem vencido. Antes de principiar a agonia que foi curta, pôs a coroa na cabeça, – uma coroa que não era, ao menos, um chapéu velho ou uma bacia, onde os espectadores palpassem a ilusão. Não, senhor; ele pegou em nada, levantou nada e cingiu nada; só ele via a insígnia imperial, pesada de ouro, rútilas brilhantes e outras pedras preciosas (cap. CC).

Enfim, é assim a vida humana; achamos que temos na cabeça uma coroa de ouro, quando, na verdade, tudo não passa de um chapéu velho ou coisa semelhante.

Mas Rubião é apenas um símbolo – “o fenômeno é universal”- e a vida, haveria de continuar corredia e besta como ela é, ad saecula saeculorum, amen

Hipocrisia-ambição

Dentro dessa perspectiva niilista e pessimista é que Machado situa a sociedade que retrata – sociedade hipócrita e falsa, interesseira e fútil, incapaz de olhar mais a fundo no íntimo dos problemas.

Em volta do Rubião formou-se a constelação de parasitas e ambiciosos. Quem se salva entre eles? – Talvez apenas o cão, o único que era capaz de rece-ber um pontapé e voltar correndo para o seu dono. Acaso alguém se interessou, realmente, pelo Rubião, quando este perdeu toda a sua fortuna? Entre-tanto, ele tivera “amigos”. A casa vivia cheia deles.

Enfim, tudo gira em torno do interesse e da ambição e para combatê-los só resta a ironia e humor. Nada escapa à análise dissecante de Machado nem a troca de um “u” por um “i” nem a estrutura secular do matrimônio indissolúvel. Afinal, como pensava D. Fernanda, a propósito do casamento, “um marido, ainda mau, é sempre melhor que o melhor dos sonhos”… (cap. CXVIII).

Indiferença cósmica

Acaba-se o mundo, chore quem quiser, ria, gargalhe a humanidade, que os astros do céu pouco estão ligando para os risos e lágrimas humanas. Ficarão sempre firmes e inabaláveis, longe das intempéries do planeta dos homens. Assistirão, com a mesma indiferença e impassibilidade de sempre, “às bodas de Jacó e ao suicídio de Lucrécia” (cap. XLVI).

Este é outro aspecto marcante do romance: a indiferença cósmica com que Machado de Assis vai fechar o seu livro. A passagem se refere à morte do Rubião e do cão Quincas Borba:

Eia! Chora os dous recentes mortos, se tens lágrimas. Se só tens riso, ri-te! É a mesma cousa. O cruzeiro, que a linda Sofia não quis fitar, como lhe pe-dia Rubião, está assaz alto para não discernir os risos e as lágrimas dos homens(cap. CCI)

Quincas Borba

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