Dicas de português

Melhores redações da Unicamp 2008


Dicas de Português

Melhores redações da Unicamp: Redação 1

Bruno Costa Magalhães

     As doenças, assim como os danos causados pelo consumo de substâncias prejudiciais à saúde humana, têm relação, muitas vezes, com o comportamento do indivíduo. A prevenção desses males não pode negligenciar este aspecto: a atividade preventiva estatal pode ser interpretada pelo cidadão como uma interferência em seu modo de vida ou uma critica à sua própria personalidade.

     As tensões que aí surgem podem determinar o fracasso de uma importante campanha, na qual comumente se investem milhões de reais, Intolerância contra fumantes, através da restrição ao hábito em locais públicos fechados e exposição de imagens de doentes no fundo de maços de cigarro, apesar de bem-intencionadas e econômicas (basta lembrar que o SUS gasta cerca de R$ 200 milhões por ano em tratamento de câncer relacionado ao tabagismo) não escondem uma clara crítica ao modo de vida de quem fuma.

     Medidas preventivas antiobesidade estimulam mudanças na alimentação; agentes do Programa de Saúde da Família, em visita a residências mais pobres, muitas vezes fazem uma lista de novas tarefas para a família, entre elas uma série de hábitos de higienização do ambiente de convivência e do próprio corpo; campanhas de prevenção à Aids e às DSTs estimulam a diminuição do número de parceiros sexuais; enfim, há uma zona de permanente tensão quando o Estado entra em campo para cumprir seu dever de promoção da saúde pública.

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     Essa tensão deve-se, em grande parte, a uma interpretação do direito à saúde, garantido no art. 196 da Constituicão Federal, como um direito coletivo à saúde. Com isso, o indivíduo pode – argumentam alguns – ter sua liberdade parcialmente cerceada, seus hábitos modificados por campanhas persuasivas se isso for necessário ao bem comum.

     Há de haver distinções. Se o comportamento individual alvo da ação preventiva do Estado inegavelmente afeta outros indivíduos que com ele convivem, permitindo a transmissão involuntária de uma doença, deve o poder público agir no sentido da conscientização preventiva, com campanhas aptas a alcançar esse fim. Contudo, se o comportamento individual apenas afeta pessoas conscientes dos seus atos, acreditamos que o Estado deve agir com mais cautela e preservar a individualidade.

     Exemplo recente e controverso do primeiro caso foi a distribuição, pelo governo federal, de cartilha destinada a adolescentes, com o objetivo de ensinar-lhes a utilização da camisinha – vista por setores da sociedade civil como um incentivo à sexualidade precoce e um reconhecimento, pelo Estado, de que esse despertar somente será maléfico se não houver uso de preservativo.

     Também o programa de redução de danos por uso de entorpecentes, consistente no seu uso monitorado, é alvo de críticas semelhantes: indução de comportamento.

     É necessário que o Estado atue com rigor através de campanhas preventivas, de tratamento e de fornecimento de medicamentos. A informação deve circular o mais isenta possível de opiniões parciais e indutivas, com a freqüência necessária e suficiente para permitir aos indivíduos a adoção das medidas pessoais que, plenamente conscientes, melhor se ajustarem à sua vida e à de sua família. Se for além disso, o Estado corre o risco – já concretizado no alvorecer do século passado, no Rio de Janeiro, de ver contra si uma multidão insatisfeita e sufocada. No desencontro de boas intenções, muito se perde; perde-se a oportunidade de alcançarem, ambos os lados, aquilo com que sonham: uma saúde sustentável e uma liberdade saudável.

Veja também:

Redação 2, de Jéssica Marcon Dalcol

Livro "Redações Vestibular 2008", da Unicamp

 

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