Paraísos artificiais


Conto: Paraísos Artificiais


Paraísos Artificiais - Paulo Henriques Britto

Créditos: Prof. Manoel Neves

Narrador: o narrador em terceira pessoa faz interlocução com um provável interlocutor (você, leitor? Escritor?)

Personagens: alguém que hipoteticamente estaria sentado numa cadeira.

Tempo: Cronológico, mas indefinido.

Espaço: Interior de um quarto.

Técnicas usadas: Uso de sequências expositivas e argumentativas.

Enredo:
Este primeiro conto de Paraísos artificiais, de Paulo Henriques Britto, funciona como uma espécie de introdução, porque, a priori, não existe história e a temática desenvolvida volta nos demais textos da coletânea.
 
Trata-se de um texto em que predominam as seqüências expositivas e argumentativas. Não há, apesar de se tratar de um livro de contos, uma narrativa propriamente dita. Até mesmo a fonte usada, itálico, diferencia este texto dos oito demais da coletânea:
 
Você está sentado numa cadeira. Você está sentado nesta cadeira já faz bastante tempo. Você fica sentado nesta cadeira durante muito tempo, diariamente. Você não conseguiria ficar parado em pé por tanto tempo; logo você ficaria cansado, com dor nas pernas. Também não conseguiria permanecer tanto tempo assim deitado na cama, de cara para o teto; essa posição se tornaria cada vez mais incômoda com o passar do tempo, até fazê-lo virar-se para um lado – por exemplo, para o lado esquerdo; mas depois de alguns minutos de bem-estar, seu corpo seria dominado pouco a pouco por uma sensação de desconforto que gradualmente se transformaria numa idéia, de início vaga, depois mais nítida, mais e mais, até cristalizar-se nas palavras: “Esta posição é a menos confortável que há”, e essas palavras em pouco tempo levariam a estas: “A posição mais confortável de todas seria ficar virado para a direita”. A idéia aos poucos se tornaria mais forte, até sobrepujar a inércia natural do corpo, e nesse momento você se viraria para o lado direito. Imediatamente uma sensação deliciosa de prazer lhe invadiria o corpo, como se cada célula sua fosse uma boca a proclamar: “Essa é verdadeiramente a mais confortável de todas as posições”. A nova sensação, porém, não perduraria por muito tempo; logo você seria obrigado a trocar de posição mais uma vez, e todo o ciclo recomeçaria.
 
Neste trecho, o locutor – de terceira pessoa – constrói seu texto, buscando uma interlocução com um leitor genérico [você – leitor? escritor?] e expõe uma idéia segundo a qual a posição mais confortável do mundo seria ficar sentado numa cadeira. Aliás, em qualquer outra posição [até mesmo deitado numa cama], o leitor/escritor se sentiria [hipoteticamente, de acordo com o locutor] incomodado e sempre buscaria a mudança, visando à satisfação. E por falar em satisfação, convém explicitar uma relação intertextual.
 
Há, no título deste conto e da coletânea, um diálogo óbvio com o livro Paraísos artificiais, do escritor francês Charles Baudelaire.
 
O livro de Baudelaire, cujo título remete às satisfações momentâneas que os homens buscam para fugir da mediocridade existencial, é uma coletânea de ensaios sobre o uso do ópio e do haxixe.
 
Conforme visto anteriormente, o conto de Paulo Henriques Brito fala exatamente da busca de satisfação. Vejamos, pois, uma exposição mais detalhada do enredo.
 
O locutor, num primeiro momento, afirma que a posição mais confortável [para que seu interlocutor permanecesse] seria ficar sentado numa cadeira. De pé, ele poderia se cansar. Mesmo deitado, olhando para o teto, virado para a esquerda ou virado para a direita, ele ficaria cansado.
 
Na cadeira, ao contrário da cama, os momentos de prazer seriam maiores do que em outra posição. Bastaria, de vez em quando, mudar a posição das pernas. Entretanto, de acordo com o locutor, tudo é uma questão de escolha, e entre, de um lado, uma situação em que breves períodos de intenso prazer se alternam com longos períodos de conflito entre inércia e desconforto crescente, e, de outro, uma situação em que perdura uma sensação mais ou menos constante de bem-estar, sem grandes variações. Por isso mesmo, seria preferível esta última posição.
 
Depois deste primeiro raciocínio, segue-se a seguinte idéia: ao permanecer sentado na cadeira, o espaço ocupado pelo corpo do interlocutor ficaria impregnado da presença física do interlocutor, ou seja, ele guardaria agora alguns vestígios da substancialidade que o corpo do interlocutor deixou ali. Mesmo que o interlocutor volte à cadeira e se sente exatamente onde estava anteriormente, ele sempre perderá camadas sucessivas do seu ser e sua existência se desintegraria a cada instante no espaço. Para modificar o modo como se vivencia esta perda [consciência da desintegração do eu/ser no espaço], bastaria o interlocutor voltar à cadeira e começar a escrever: Mas há uma forma de alterar essa situação [desintegração do ser no espaço] – quer dizer, não alterá-la objetivamente, o que seria impossível, e sim modificar o modo como você a vivencia (e como você só sabe das situações o que vivencia delas, para todos os fins práticos modificar sua percepção de uma situação é mesma coisa que modificar a si): basta sentar-se na cadeira, pegar um lápis e uma folha de papel e começar a escrever.
 
A literatura funciona, pois, para o locutor, como uma forma de impedir a desintegração do eu no [tempo e no] espaço.
 
Num breve artigo publicado no Boletim tutores, da Faculdade de Medicina da USP, cita-se uma entrevista do autor, em que ele classifica os primeiros contos do livro de “solipsistas”, devido ao imobilismo e à subjetividade presente nos textos.
 
Na verdade, o solipsismo, referido anteriormente, é uma doutrina filosófica segundo a qual, além de nós, só existem as nossas experiências. De acordo com tal pensamento, só o ser existe e o mundo ao redor é apenas um esboço virtual do que o ser imagina.
 
Isso explica a imobilidade [beckitiana, de Samuel Beckett] dos primeiros textos da coletânea. Nada acontece nas primeiras histórias. Desse modo, o texto se presta a apresentar as impressões do narrador acerca de determinada realidade, o que acaba gerando uma “rarefação do referente”.
 
O referente [mundo exterior, história, narrativa] não importa. Importa apenas a percepção que o locutor tem sobre ele. Mais ainda: no texto só comparecem essas impressões. Tal recurso gera uma narrativa altamente subjetiva e impressionista.
 
É por isso que se pode afirmar que, em “Os paraísos artificiais” o tempo, totalmente indefinido – por isso mesmo subjetivo, pessoal – não interessa. O que temos uma personagem – o interlocutor do narrador de terceira pessoa – que, hipoteticamente, estaria em um quarto.


Estudo dos demais contos presentes na obra Paraísos Artificiais, de Paulo Henriques Britto.


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