o violinista mora ao lado

O Coração Roubado, de Marcos Rey


Crônica: O Violinista mora ao lado

O Coração Roubado - Marcos Rey

            A melhor coisa que não fiz na juventude foi versos. Parei no terceiro poema sob aplauso geral das musas. Ainda hoje me orgulho dos maus versos que não fiz. Mas tem gente que não desconfia. Mesmo sem a menor vocação para isto ou aquilo, insiste. Conheci assim um violinista. Morávamos na mesma pensão. Eu estava solitário no quarto quando ele bateu à porta. Um homem alto de cabelos brancos com um esparadrapo na testa. Nunca havíamos sido apresentados. Trazia o violino debaixo do braço.
            - Tenho notado que você é um rapaz muito sensível – foi dizendo ele, tenro. - Gosta de música cigana?
            - Cigana? – Nem lembrava. – Adoro.
            - São minhas prediletas. Conheço sentenas.
            E sacou logo a primeira. Tive imediatamente a impressão de ouvir os vagidos de um recém-nascido em agonia, enforcado no cordão umbilical, ou o choro de mil felinos órfãos, perdidos na floresta. O som que ele arrancava do instrumento, arrancava, repito era agudo e comprido, com as propriedades do puxa-puxa, lembram? Aquele doce elástico e grudento. E enquanto feria os tímpanos, sob ameaça de rompimento, provocava no estômago enjoo incontrolável, perto de vômito. Mas fora honesto, de fato conhecia centenas de canções gitanas.
            Deitei na cama, a melhor posição para suportar o ataque. O sofrimento não aliviou muito. Continuava detestando aquele concerto que fazia nascer em mim um inédito sentimento racista: ódio aos ciganos. Trapaceiros, velhacos, ladrões de cavalo. Perdoem-me.
            Enquanto ouvia, pensava na minha existência infeliz. Jovem, cheio de sonhos, mas subempregado, sem amores, sem amigos, morando numa mísera pensão, tinha ainda de aguentar aquele maldito e imprevisto violinista numa linda noite estrelada. Ele, porém, acertara numa coisa: eu era um rapaz sensível. Não pude conter uma lágrima bem sofrida.
            O Paganini surpreendeu-a:
            - Isso, era o que eu esperava! – bradou. – Uma lágrima! Para mim é o maior elogio!
            Esta cena dilacerante repetiu-se mais duas vezes naquela semana. Lembro de ter parado por uns instantes no viaduto do Chá, onde, naqueles anos, era moda e quase um luxo suicidar-se. Menos dramaticamente, precisei arranjar dinheiro emprestado para mudar às pressas da pensão e escapar do virtuose. A outra era muito mais cara.
            Outro caso de vocação malsucedida me faria sofrer muitos anos mais tarde. Já tinha livros publicados e não morava mais em pensões, quando uma moça se aproximou de mim com jeito de flerte. Era bonita, estava bem vestida e tinha automóvel. Pareceu-me conquista fácil.
            - Vamos até o meu carro? – convidou.
            Entramos, eu feliz.
            - Belo carro! – exclamei.
            - Não é o que eu queria lhe mostrar – disse ela. – Você é escritor, não é?
            - Escrevi alguns livrinhos.
            - Gostaria que desse sua opinião sobre um romance meu.
            - Pois não – respondi em cima. – Está no seu apartamento? Vamos até lá. Tenho tempo de sobra.
            - Ótimo! Mas não é necessário ir até lá. Ele está aqui – disse já retirando com dificuldade um calhamaço do porta-luvas.
            E leu. O livro todo. Três horas de chatice total, puro blábláblá, no calor do carro parado. Tortura chinesa.
            - Delicioso, não? E não acho uma editora que se interesse...
            Passei por essa provação como um castigo pelas minhas más intenções. Esse fato e o anterior já haviam virado folclore quando outro dia, próximo à minha residência, alguém me segurou pelo braço.
            - Lembra-se de mim?
            O violinista zíngaro de vinte anos atrás.
            - Evidentemente...
- Já o tinha visto. Somos vizinhos. O que me diz de visitá-lo amanhã com o violino?                       

           

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