Problemática do livro Quincas Borba, de Machado de Assis

Análise de Quincas Borba

Quincas Borba é um dos romances clássicos de Machado de Assis, publicado em 1891. Assim como Memórias Póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro, é considerado uma das obras-primas do escritor brasileiro. É um livro que se enquadra, cronologicamente, no estilo realista.

Nesta obra, Machado de Assis abandona a liberdade formal empregada em “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, seu romance anterior e marco do início do Realismo no Brasil.

A narração é feita em terceira pessoa, ou seja, o narrador não participa daquilo que narra. Há simplesmente uma observação do que está acontecendo.

Entretanto, há uma pequena relação entre “Quincas Borba” e o romance que o precedeu: o humanitismo, filosofia de vida formulada por Quinas Borba em “Memórias Póstumas”. Professor primário provinciano e enfermeiro do rico filósofo, Rubião torna-se seu herdeiro e parte para a Corte, no Rio de Janeiro para usufruir da vida. Sendo o humanitismo “uma ironia das relações humanas”, ele acompanha o ingênuo professor de Barbacena por toda a sua aventura na corte, sem que este perceba que está ilustrando, como vítima, o pressuposto básico da-quela teoria.

Pedro Rubião de Alvarenga tornou-se, em Barbacena, enfermeiro e discípulo do filósofo Quincas Bor-ba, que vem a falecer no Rio, na casa de Brás Cubas. Rubião é feito herdeiro universal do filósofo, com a condição de cuidar de seu cachorro, que também se chama Quincas Borba.

Estilo de Época

A base cultural e histórica do Realismo é a ciência que dominou as atenções na Segunda metade do século XIX. O positivismo de Comte, o psicologismo de Wundt, o evolucionismo de Darwin, o determinismo de Taine, que alastra pelo espírito humano como uma verdadeira paixão, foram algumas das filosofias da época. Surge então, a escrita objetiva, o gosto pela análise, observação, fidelidade, impassibilidade, impessoalidade… Em suma, a literatura preocupa-se em captar a realidade como ela é, formando-lhe um retrato fiel e preciso. Algumas das características da época podem ser assim ilustra-das:

Descrição fidedigna das personagens

Assim como é característico do Realismo, o escritor realista encara a realidade direta e objetivamente. Ao realista interessa o que é e não o que deve ser. Podemos afirmar, dando-se os devidos descontos, que as personagens realistas são autênticas criaturas de carne e osso que têm as virtudes e os defeitos do ser humano. O realista não idealiza a realidade, como faziam os românticos, mas pinta-a tal como ela se apresenta ante seus olhos: é um expectador que contempla de fora a realidade que o cerca. As-sim são as personagens de Machado de Assis: Capitu, Sofia, Virgília, Quincas Borba, Brás Cubas, Rubião e tantas outras que povoam seus romances de contradições, misérias, desgraças, alegrias, virtudes, defeitos – enfim, de vida.

Análise introspectiva das personagens

Machado de Assis é, incontestavelmente, o mestre da análise introspectiva, no que poderíamos chamar de dissecação da alma humana. Uma das principais características das suas obras de segunda fase, como Quincas Borba, é a análise de caracteres. Assim, Machado de Assis procura analisar o interior das personagens e das situações dramáticas, psicológicas, sociais, cômicas… Deste modo, a análise sobressai sobre o enredo da obra, assim como em “Memórias Póstumas de Brás Cubas”. A grande preocupação é a narração dos fatos e com posterior análise dos mesmos.

Objetividade e Impessoalidade

De um modo geral, ao subjetivismo romântico opõe-se o objetivismo realista, pois aqui o escritor procura evitar sempre as emoções subjetivas, conduzindo a obra de maneira direta e objetiva. Assim, raramente o escritor realista interfere nos dramas vividos por suas personagens. São meros expecta-dores que, frios e impessoais, analisam esses dramas. É claro que, muitas vezes, alguma coisa fica do artista, pois a criatura sempre revela algum traço do seu criador. Embora dificilmente se retrate na sua obra, podemos afirmar com Viana Moog que, “ferido no seu orgulho pelo mal que o aflige (epilepsia), Machado de Assis vinga-se derramando sobre a humanidade a bílis do seu humor”. Daí a sua visão niilista e pessimista da vida onde só vê “insanidade e imperfeições imanentes.” É de ver-se também o que escreve Afrânio Coutinho, desenvolvendo a natureza objetiva e impessoal do movimento realista: “O Realismo encara a vida objetivamente. Não há intromissão do autor, que deixa as personagens e os circunstantes atuarem uns sobre os outros, na busca da solução. O autor não confunde seus sentimentos e pontos de vista com as emoções e motivos das personagens.” Embora não se aplique, cabalmente, esta característica na ficção de Machado de Assis, é possível entrever este espírito de precisão e de objetividade, de frieza e impessoalidade em Quincas Borba.

Narrativa lenta e pormenorizada

Como já foi dito, não interessa ao realista a ação, mas a análise das personagens, a sua sondagem psicológica. Assim, a narrativa realista é lenta e pormenorizada, cheia de paradas e vaivéns, ao contrário do romântico que se concentra mais na ação, na intriga que desenvolve.

No caso de Quincas Borba, se comparado às Memórias Póstumas de Brás Cubas, podemos observar que os pormenores e reflexões que povoam este romance (as Memórias) são bem mais que naquele (Quincas Borba), pois, conforme Massaud Moisés, Machado de Assis “diligenciou por limpar o texto daquele excesso de reflexões morais e de interrupções no desenrolar das cenas, comuns no romance anterior (as Memórias). Parece que teve em mira de escrever um romance para ser lido e não ser anali-sado.” De qualquer modo, Quincas Borba não foge a essa norma do romance realista. Se não possui as interrupções e reflexões que caracterizam as Memórias, pelo menos não se pode dizer que Machado aqui ficou preso à história contada que “é trivial e comum, reduzindo-se a um adultério sonhado, desejado, preparado, que, afinal, não se consuma.” O romancista de Quincas Borba era bastante lúcido para não se perder em historinhas “água com açúcar” da farândola romântica.

Assim, as reflexões, as paradas são constantes em Quincas Borba, como se podem ver no decorrer do romance.

Predominância do tempo presente

O Realismo retrata a vida contemporânea. Enquanto o romântico se volta ao passado ou se projeta no futuro, o realista se fixa no presente, porque o que lhe interessa é a vida que o rodeia. Deste modo, o escritor realista “encara o presente, nas minas, nos cortiços, nas cidades, nas fábricas, na política, nos negócios, nas relações conjugais, etc.” Muitas vezes descambando para os aspectos degradantes e deprimentes da sociedade, como é o caso do romance naturalista de Aluísio Azevedo, O Cortiço.

Sem se prender às delimitações de tempo e espaço, pode-se afirmar que Quincas Borba é obra perene e imune à ação corrosiva do tempo: “é uma grande sátira da vida, de seus ingredientes e de suas verdades.

O matiz irônico reside no ser Quincas Borba uma peça única da chacota à Humanidade desenfreadamente presa a certos dogmas de superfície única de olhar mais a fundo no íntimo dos problemas. A ironia atinge a todos e só se salvam (caso consigam), os loucos, os mansos e os animais irracionais. Como sempre, Machado de Assis vê a Humanidade a correr doidamente em busca de prazeres fáceis e duma vida que só é opróbrio e alienação, embora com toda a fisionomia de verdade, porque aceita como convenção ou imperativo moral da sociedade”, ressalta o crítico Massaud Moisés.

Quincas Borba

  • Resumo do livro Quincas Borba, de Machado de Assis
  • Problemática do livro Quincas Borba, de Machado de Assis
  • Problemática do livro Quincas Borba, de Machado de Assis
  • Enredo do livro Quincas Borba, de Machado de Assis
  • Análise do livro Quincas Borba, de Machado de Assis
  • Personagens do livro Quincas Borba, de Machado de Assis
  • Deixe um comentário

    O seu endereço de e-mail não será publicado.