Redação nota 1000 no Enem 2018, de Carolina Mendes

Neste domingo, dia 03 de novembro, mais de 5 milhões de estudantes fazem as provas do 1º dia do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem 2019). Os candidatos deverão responder a 45 questões de cada área de conhecimento, Linguagens, Códigos e suas Tecnologias, e Ciências Humanas e suas Tecnologias, além de elaborar uma redação.

Confira abaixo um exemplo de redação que obteve nota 1000 no Enem 2018.

Redação de Carolina Mendes Pereira

Em sua canção “Pela Internet”, o cantor brasileiro Gilberto Gil louva a quantidade de informações disponibilizadas pelas plataformas digitais para seus usuários. No entanto, com o avanço de algoritmos e mecanismos de controle de dados desenvolvidos por empresas de aplicativos e redes sociais, essa abundância vem sendo restringida e as notícias, e produtos culturais vêm sendo cada vez mais direcionados – uma conjuntura atual apta a moldar os hábitos e a informatividade dos usuários. Desse modo, tal manipulação do comportamento de usuários pela seleção prévia de dados é inconcebível e merece um olhar mais crítico de enfrentamento.

Em primeiro lugar, é válido reconhecer como esse panorama supracitado é capaz de limitar a própria cidadania do indivíduo. Acerca disso, é pertinente trazer o discurso do filósofo Jürgen Habermas, no qual ele conceitua a ação comunicativa: esta consiste na capacidade de uma pessoa em defender seus interesses e demonstrar o que acha melhor para a comunidade, demandando ampla informatividade prévia. Assim, sabendo que a cidadania consiste na luta pelo bem-estar social, caso os sujeitos não possuam um pleno conhecimento da realidade na qual estão inseridos e de como seu próximo pode desfrutar do bem comum – já que suas fontes de informação estão direcionadas –, eles serão incapazes de assumir plena defesa pelo coletivo. Logo, a manipulação do comportamento não pode ser aceita em nome do combate, também, ao individualismo e do zelo pelo bem grupal.

Em segundo lugar, vale salientar como o controle de dados pela internet vai de encontro à concepção do indivíduo pós-moderno. Isso porque, de acordo com o filósofo pós-estruturalista Stuart-Hall, o sujeito inserido na pós-modernidade é dotado de múltiplas identidades. Sendo assim, as preferências e ideias das pessoas estão em constante interação, o que pode ser limitado pela prévia seleção de informações, comerciais, produtos, entre outros. Por fim, seria negligente não notar como a tentativa de tais algoritmos de criar universos culturais adequados a um gosto de seu usuário criam uma falsa sensação de livre arbítrio e tolhe os múltiplos interesses e identidades que um sujeito poderia assumir.

Portanto, são necessárias medidas capazes de mitigar essa problemática. Para tanto, as instituições escolares são responsáveis pela educação digital e emancipação de seus alunos, com o intuito de deixá-los cientes dos mecanismos utilizados pelas novas tecnologias de comunicação e informação e torná-los mais críticos. Isso pode ser feito pela abordagem da temática, desde o ensino fundamental – uma vez que as gerações estão, cada vez mais cedo, imersas na realidade das novas tecnologias – , de maneira lúdica e adaptada à faixa etária, contando com a capacitação prévia dos professores acerca dos novos meios comunicativos.

Por meio, também, de palestras com profissionais das áreas da informática que expliquem como os alunos poderão ampliar seu meio de informações e demonstrem como lidar com tais seletividades, haverá um caminho traçado para uma sociedade emancipada.

Comentários

A participante demonstra excelente domínio da modalidade escrita formal da língua portuguesa, uma vez que a estrutura sintática é excelente e há apenas um desvio: uma vírgula usada de forma equivocada no primeiro parágrafo, em “as notícias, e produtos culturais”.

Em relação aos princípios da estruturação do texto dissertativo-argumentativo, percebe-se que a participante apresenta uma tese, o desenvolvimento de justificativas que comprovam essa tese e uma conclusão que encerra a discussão. Ou seja, a participante apresenta excelente domínio do texto dissertativo-argumentativo. Além disso, o tema é abordado de forma completa, demonstrando uma leitura cuidadosa da proposta de redação: logo no primeiro parágrafo, a participante já anuncia a problemática ao apontar que os mecanismos de controle de dados são responsáveis por moldar os hábitos e o grau de informatividade dos usuários.

Observa-se também o uso produtivo de repertório sociocultural pertinente à discussão proposta pela participante em mais de um momento do texto: no primeiro parágrafo, ao dizer que, diferentemente do que é cantado por Gilberto Gil, hoje as informações disponibilizadas na internet acabam sendo restringidas devido ao controle de dados; no segundo parágrafo, quando apresenta o conceito de ação comunicativa, de Jürgen Habermas, que é prejudicada devido ao direcionamento de informações, o que também prejudica a característica de múltiplas identidades do indivíduo, proposta por Stuart-Hall e apresentada no terceiro parágrafo.

Percebe-se também, ao longo da redação, a presença de um projeto de texto estratégico, com informações, fatos e opiniões relacionados ao tema proposto, desenvolvidos de forma consistente e bem organizados em defesa do ponto de vista. Já no primeiro parágrafo, é apresentado o problema da manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet, que, segundo a participante, além de ser inconcebível, deve ser enfrentada.

Ao longo do desenvolvimento, ela mostra como a seleção, por meio de algoritmos, daquilo que é visto pelos usuários interferem em suas vidas, seja por limitar seu papel como cidadão como por limitar o acesso ao conhecimento. Por fim, são apresentadas propostas de intervenção articuladas ao problema apontado pelo participante.

Em relação à coesão, encontra-se, nessa redação, um repertório diversificado de recursos coesivos, sem inadequações. Há articulação tanto entre os parágrafos (“Em segundo lugar”, “Portanto”) quanto entre as ideias dentro de um mesmo parágrafo (1º parágrafo: “seus”, “No entanto”, “essa”, “Desse modo”; 2º parágrafo: “Acerca disso”, “assim”, “já que”, “também”; 3º parágrafo: “Isso”, “porque”, “Sendo assim”, “tais”, “Por fim”; 4º parágrafo: “Para tanto”, “seus”, “uma vez que”, entre outros).

Por fim, a participante elabora excelente proposta de intervenção, concreta, detalhada e que respeita os direitos humanos: propõe que as escolas tornem seus alunos mais críticos e que os ensinem a lidar com a seletividade gerada pelos algoritmos.

Gabarito e Resultado

No dia 13 de novembro de 2019, você já poderá acessar o gabarito oficial do Enem 2019, que estará disponível no site do Enem, site do Inep e pelo aplicativo do Enem.

O resultado do Enem 2019 será divulgado no dia 17 janeiro de 2020. Quem prestar exame como treineiro só terá acesso aos resultados em março de 2020.

Em janeiro de 2020, de posse das notas obtidas no Enem 2019, os estudantes podem concorrer a milhares de vagas em todo o país. As provas do Enem 2019 serão aplicadas em dois domingos consecutivos, dias 03 e 10 de novembro. O exame é uma das principais formas de acesso ao Ensino Superior público no país, através do Sistema de Seleção Unificada (SISU), e nas faculdades particulares, através do Programa Universidade Para Todos (PROUNI). Ao todo, 42 instituições de Portugal já aceitam as notas obtidas no Enem para ingresso nas suas graduações.

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